A agrossilvicultura Cosme e Damião é parceira do ITC nos projetos socioambientais

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A Agrossilvicultura São Cosme e Damião é uma agrofloresta criada no bojo da crise provocada pela epidemia da Vassoura de Bruxa, doença que desestruturou a economia da região cacaueira da Bahia. Os primeiros focos da doença foram dectados nos anos finais da década de 1980 e, poucos anos depois a cultura do cacau ficou, praticamente, inviável. A iniciativa surgiu nesse cenário de devastação: roças abandonadas, desemprego, suicídio de grandes produtores etc.

A partir da aquisição de uma pequena propriedade (13 hectares, local do primeiro foco da doença no município de Ubaitaba) buscou-se aprofundar as reflexões sobre o combate e os agentes causadores da doença. Em quase 30 anos de trabalho foi possível perceber que a perspectiva monocultural do pacote tecnológico da Revolução Verde foi um dos principais fatores causadores da doença. O cacau é uma planta de clima tropical e se desenvolve bem no ambiente de floresta; em sistemas de cultivo nos quais, o que garante a estabilidade é a relação entre as diferentes espécies – cultivadas e espontâneas - presentes em um agroecossistema complexo. Por outro lado, o uso intensivo de fertilizantes industriais e agrotóxicos contaminou o solo e desestruturou ainda mais o sistema monocultural de cultivo. O que então teria acontecido com o cacau no Sul da Bahia? Um fungo em um agroecossistema simples (monocultura), contaminado pela utilização intensiva de agrotóxicos e fertilizantes industriais, com muito poucos organismos, encontrou terreno fértil para se desenvolver, levando o sistema à devastação total.

Pois bem, engana-se quem, ingenuamente, pensar que foi fácil reverter o modelo monocultural e mecânico da agricultura da Revolução Verde implantado pelo antigo proprietário, um técnico da CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira).  Em primeiro lugar, como um câncer, esse modelo monocultural ‘corrói’ os neurônios e se impõe como natural. Em segundo lugar, de forma meio mágica, rompe barreiras naturais e consegue ultrapassar os limites impostos pela natureza, com o cacau plantado em todo lugar e, inclusive, em qualquer lugar. Não obstante o socorro governamental, com tecnologias avançadas e empréstimos bancários, foram assim os últimos trinca anos na Região Cacaueira da Bahia: uma luta insana de pesquisadores, técnicos e cacauicultores contra um verdadeiro “Dragão da Maldade”, personificado em um fungo basidiomiceto, o Moniliophtora perniciosa, em uma referencia à obra prima do cineasta baiano Glauber Rocha.

Pois bem, na Agrossilvicultura São Cosme e Damião, nesses quase 30 anos de caminhada, as trilhas seguidas foram outras e buscaram a transformação de uma monocultura em uma floresta biodiversa, respeitando à diversidade da floresta tropical. A luta contra o “Dragão da Maldade” valeu a pena com os inimigos sendo lentamente abatidos pela dinâmica da floresta tropical, o nosso verdadeiro “Santo Guerreiro”. Por sobre os monolcultivos lineares de cacau sombreados por grandes árvores nativas da Mata Atlântica – o que alguns ousam nominar de Sistema Agroflorestal Cacau Cabruca – lentamente surgiu um sofisticado sistema de manejo agrícola, eficiente no quesito sustentabilidade e capaz de manter ao longo dos anos a produtividade da terra, da fauna e da flora.

Na Agrossilvicultura Cosme e Damião os cacaueiros (que sobreviveram à epidemia da Vassoura de Bruxa e aos agrotóxicos) ‘aprenderam’ a conviver e a produzir na companhia dos cupuaçuzeiros, segundo os pesquisadores da CEPLAC, hospedeiro da Vassoura de Bruxa; das pupunheiras, que não mais ‘ressecam’ a terra (um mau presságio lançado pelos próprios agrônomos da CEPLAC); dos açaizeiros, que produzem seus frutos em abundância nos períodos de folga do cacaueiro (na entressafra); das nogueiras (noz de cola, noz de moscada e noz macadamia); das pitangueiras, jaqueiras, goiabeiras; em suma, de uma infinidade de espécies vegetais que se adaptam bem ao ecossistema florestal da Mata Atlântica e de animais que se alimentam de sementes e frutos abundantes nas florestas tropicais.

Nesse contexto, em que várias imagens se misturam, é importante registrar que na Agrossilvicultura São Cosme e Damião, como em um grande conjunto habitacional, a vida pulula em todos os andares, inclusive no subsolo, povoado por minúsculas formas de vida (fungos, bactérias, vermes etc.) e por caules e raízes de plantas dadivosas que enriquecem nossa alimentação. No andar térreo, flores tropicais, ervas medicinais, plantas alimentícias, muitas delas conhecidas como PANCS (plantas alimentícias não convencionais), ou mesmo desconhecidas dos humanos e os filhotes das plantas que vicejam nos andares superiores disputam a pouca luz e dividem a abundância de nutrientes. Nos andares intermediários – no sub-bosque - a floresta frutifica e nos andares superiores – no dossel – o colorido dos jacarandás, do mogno, dos Ipês em seus mais diversos matizes (roxo, branco, amarelo), das sapucaias, das palmeiras e uma variedade quase infinita de especiais vegetais emprestam um colorido particular à paisagem.